Documentário “Os Herdeiros do Bairro”

“OS HERDEIROS DO BAIRRO”

 Documentário sobre a população que habitou o Bairro 6 de Maio ao longo de mais de cinco décadas

 

Entramos hoje no Bairro 6 de Maio e temos dificuldade em chamar-lhe bairro. Poucos edifícios ainda são habitados, e o que resta da maioria das casas do Bairro são algumas paredes coloridas e chão de entulho.

As histórias do Bairro são o legado deste lugar onde chegaram a habitar 1200 famílias. As vidas destas pessoas são a prova que o Bairro continua a existir mesmo depois de demolirem a última casa. O futuro de cada um dos habitantes do bairro não acaba porque o Bairro amanhã dará lugar a outra coisa: um centro comercial, um condomínio fechado ou uma fábrica.

Este Documentário guarda as memorias do espaço e das pessoas numa relação antagónica de olhares: nós que estamos a chegar e que vemos quase tudo destruído e aqueles que vieram de lá e que veem tudo o que a memoria teima em não querer esquecer. A beleza desta relação é o ponto de partida deste documento social que tem uma estética e uma plástica urbana, humanista e provocadora. Este não é mais um documentário sobre um bairro clandestino à porta de uma grande cidade.

Para quem nasceu e viveu no Bairro, ele ainda está de pé. A memória destas pessoas é repleta de casas com gente, cozinhas com panelas ao lume e quartos onde ainda dormem crianças. Esta memória não vai morrer, mesmo quando já não houver uma casa de pé.

Porque haverá sempre alguém que vai dizer:

– No Bairro fazia-se assim…

– Lembras-te no Bairro quando brincávamos juntos!

– No Bairro era diferente, todos se conheciam.

Há pessoas que, não nascendo no Bairro, ajudaram-no a ter uma identidade, são do Bairro e fazem parte da sua vida. As Irmãs Dominicanas do Rosário chegaram ao Bairro em 1976 com a missão de prestar apoio às famílias, maioritariamente africanas, que ai residem desde essa altura.  Hoje são dos últimos moradores a permanecer ainda no Bairro. A Irmã Deolinda sabe onde era a casa da sua amiga Faustina mesmo depois da casa já não existir. Sabe que a Belinha pediu ao pai para pintar o quarto de cor de rosa quando fez 15 anos. Lembra-se bem desse dia. Agora passa junto à única parede que resta do quarto da Belinha e fala dos filhos que ela já tem e de como são a cara da mãe…

A Irmã Deolinda é uma das nossas anfitriãs que nos conta as histórias das paredes que ainda restam e dos espaços vazios que cada vez são em maior número. Já houve tempos, começa ela por nos contar, em que não se conseguia abrir um chapéu de chuva nestas ruas, porque as casas eram demasiado juntas umas às outras, um labirinto!

Para além da Irmã Deolinda convidámos outros moradores do Bairro a, também eles, nos levarem numa viagem pessoal pelos diferentes espaços do Bairro e assim temos várias viagens destintas que se irão complementando ao longo do documentário.

São depoimentos de moradores tão carismáticos como o Sr. Estevão, o primeiro morador do Bairro. Oriundo de Cabo Verde, chegou a Portugal no final de 1972, vindo diretamente das roças de São Tomé, para trabalhar na construção civil. No inicio de 1974 constrói a primeira “barraca” do que viria a ser o Bairro 6 de Maio.

Com uma historia diferente, a Dona Faustina vem de Cabo Verde com 16 trabalhar para Roma onde fica apenas uns meses. De visita a familiares em Portugal conhece o pai dos seus três filhos. Decide ficar e constroem juntos uma pequena barraca em 1976. Mais tarde a família aumenta e a barraca dá lugar a uma casinha de tijolo mais confortável. Foi nessa casa que criou os filhos e onde teve a felicidade de organizar muitos jantares de Natal para os netos.

Também falámos com a Belinha, que é enfermeira, a Elsa e o Paulo que são sociólogos, o Carlos que trabalha num Hotel e o Paulo é técnico nos CTT, todos jovens adultos nascidos e criados no Bairro e que, mesmo já não vivendo no Bairro, fazem questão de partilhar as suas experiências e o quanto foram felizes juntos.

Através das historias do Bairro e da generosa partilha de todos aqueles que se disponibilizaram a participar neste documentário, ficamos a conhecer a identidade desta comunidade maioritariamente cabo-verdiana. Percebemos que, para lá de uma língua que não compreendemos e de uma cultura que por vezes nos intriga, há a vivencia diária das famílias, com as suas preocupações e sonhos, que afinal são os mesmos de todos nós. Esta proximidade na essência ajuda-nos a quebrar barreiras de estereótipos, de preconceitos e de medos. Este documentário tem como objetivo principal preservar o legado desta comunidade que habitou este Bairro da periferia de Lisboa e, como objetivo maior, demonstrar que partilhamos valores fundamentais de humanidade e um país que todos sentimos como nosso. A sensibilização para a descoberta e aceitação das diferentes minorias que fazem cada vez mais parte do tecido social das grandes cidades nacionais e internacionais é a missão deste documentário, missão essa que é partilhada pela Help Images e pelo Centro Social 6 de Maio.

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